março 31, 2011

O desenho


“Na semana anterior tinha feito dois suetos, e, descoberto o caso, recebi o pagamento das mãos de meu pai, que me deu uma sova de vara de marmeleiro. As sovas de meu pai doíam por muito tempo. Era um velho empregado do Arsenal de Guerra, ríspido e intolerante. Sonhava para mim uma grande posição comercial, e tinha ânsia de me ver com os elementos mercantis, ler, escrever e contar, para me meter de caixeiro. Citava nomes de capitalistas que tinham começado no balcão. Ora, foi a lembrança do último castigo que me levou naquela manhã para o colégio. Não era um menino de virtudes.”
No caminho o pensamento era vago. Embora os motivos fossem suficientes – o bastante para desejar toda a coleção de Adam Smith queimando sobre o fogo crepitante-, as idéias me fugiam. Um grande sinal dos céus, essa falta de inspiração, um alerta de que essa travessura poderia ser a última? Descartei a idéia com um dar de ombros, pois nunca fora assim tão tolamente supersticioso.
Era velha aquela escola: a fachada com lodo acumulado, a grama quase nunca aparada e os encanamentos que rangiam a faziam fundir-se com o clima acinzentado da cidade. Tudo ali refletia os ânimos dos alunos. Éramos amparados sempre pela ameaça de cólera que por vezes atingia nossos professores e suas palmatórias. 
Madame Poupard já estava em sala e de sua postura rígida me apontou a carteira. Sentei-me, fitando a janela. Como gostaria de estar no pátio um pouco mais... Olhar para o céu e imaginar desenhos naquelas nuvens escuras. Abaixo da janela estava o piano – cheio de poeira, como tudo o mais-, que sempre me fazia a muda pergunta: por que não o tocavam? E eu assim ia devaneando...
- Que está esperando, menino? – esbravejou a professora.
Tentei ler, mas as palavras do livro “O pequeno príncipe” zombavam de mim. As letras pareciam se desmanchar.
- Só poder enxergar alguém, aquele que alguém dar pode.
Era o suficiente, e recebi quatro bolos em cada mão. Fui encaminhado para o fundo da sala, enquanto meus colegas gargalhavam. Madame Poupard tentava acalmar a turma, e mesmo depois que o silêncio se instalara as palavras ainda ressoavam em minha cabeça. Não era como imaginara minha manhã.
O sinal do intervalo tocou, e logo todos já haviam partido para o recreio. O segundo tempo seria desenho, então resolvi adiantar as tarefas do dia. Abri o estojo que ganhara no natal e me pus a trabalhar. Comecei pelo caderno, mas o desenho parecia escorrer pelas pontas, serpenteando com a tinta até as paredes. Segui-o. Tentei prede-lo novamente ao lápis, mas acabei pintando o mundo como o via.
Foi assim que o professor me encontrou, conversando com os desenhos. Levou-me até a direção, chamando-me “criança fora de controle”. Outro professor que lá estava o recriminou por reprimir um tal ‘fluxo criativo’. Eu não me reconheci em nada daquilo, então permaneci calado.
A medida que minha ‘qualidade’ de artista virou boato e espalhou-se pela escola, papai tratou de meter-me num daqueles internatos católicos -  se não podia ver-me caixeiro, que acabasse com as ‘caraminholas que o diabo colocara na minha cabeça’. Não ouso reclamar, pois é bem verdade que tudo aconteceu há tanto tempo que já não lembro os nomes ou rostos, mas as travessuras que o castigo me despertava estão até hoje cravadas na memória.



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